sábado, 16 de janeiro de 2010

Processo nº tal


Caso simples: crime passional.

- Então o senhor sustenta se tratar de crime passional?
- Sim, Meritíssimo, crime passional.
- Promotoria dispõe da palavra.
- Meritíssimo, amor...morte...contradição em termos. O argumento de crime passional não me convence nem comove – senão causa náusea. Que diz a defesa? Que a amava o homem que a matou a facadas? Pois que os homens se odeiem!
- Ora, temos aqui um trovador...
- Prefiro-o à frieza dos escritórios – talvez aquela mesma que impediu o agente de sentir o calor do sangue da vítima, que com ela se espalhava pelo chão.
- Mas isto é agressão, Meritíssimo!
- Peço-lhe se contenha, senhor Promotor.
- Peço-lhe calor – o da vítima que, sim, amava, pois ao agente confiou até mesmo a vida. Excelência, o verdadeiro passional não mata, acolhe. O amor não separa, tampouco faz que se entrelacem um ao outro como se mãos fossem, vez que esta união facilmente se desfaz. Antes, pelo contrário, é como cimento, areia e água fazem concreto. Pois o amor é a água! Quando areia e cimento se juntam e se lhes adiciona água, edifica-se, ergue-se do improvável um paraíso; do impossível, uma ponte. A ponte se quebra se não há água, aquela que faz deles um só, ou se o “ponto da massa” não foi o desejável, aquele no qual não há nem mais nem menos: só o suficiente – mas necessário – de todos os elementos.
- Baaaaahhhhhhh.... trovas, trovas, trovas...isto é um Tribunal, não um palco!
- Talvez não tenha consultado seus manuais, pelo que me desculpo. Mas bem: diz o Código Penal que para fins de responsabilidade a Lei considera o momento do crime, e no momento do crime o que há é ódio, não há amor. Porque protege e visa perfeição, quem em verdade ama não perfura fria e indiferentemente pessoa como se trapos de panos fossem. Não, os jorros de sangue não o fizeram parar: foi até o último suspiro, quis amá-la do seu jeito até o fim. Quem é capaz de tanto não pode amar. O amor está nos lares, celeiros, maternidades; não em necrotérios, manicômios, cemitérios. O amor não tira: põe gente no mundo.
Excelência, o amor está nos berços, não está nos túmulos.

Um comentário:

  1. Essa coisa meio novelesca de justificar atitudes más com "foi por amor" realmente merece uma sacudida!
    Uma argumentação bem zetética (no lado bom da palavra), capaz de entronchar os pobres manualísticos. Hehehe!

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