sexta-feira, 16 de abril de 2010

Poeminha - Riacho

Riacho
Acho


Rosana Hermann é física, escritora, roteirista e apresentadora. Foi redatora "Pânico". Assina o blog Querido Leitor.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A primeira pessoa

No começo era eu. Só eu. Eu eu eu eu eu eu. Não existia nem a segunda pessoa do singular, porque não podia chamar Deus de "tu". Tinha que chamá-lo de "Senhor". Não existia "ele". Não existia "nós". Nem "vós". Nem "eles". Só existia eu. Eu, eu, eu, eu. Não é que eu fosse um egocêntrico. É que não havia alternativa!

***

Eu não podia pensar nos outros porque não havia outros. O mundo era uma gramática em branco. Só havia eu e todos os verbos eram na primeira pessoa. Eu abri os olhos. Eu olhei em volta. Eu vi que estava num Paraíso (do grego paradeisos, um jardim de prazeres, ou do persa paridaiza, o parque de um nobre, mas isso só se soube depois). Eu perguntei "O que devo fazer, Senhor?", e Deus respondeu: "Nada, apenas exista". E eu fui tomado pelo tédio. A primeira sensação humana.
E Deus viu que eu me enteviava, pois do que vale ser um nobre no seu parque se não existem os outros para nos invejar? E então Deus, que já tinha criado o tempo, criou o passatempo, e me encarregou de dar nome às coisas. Eu vi a uva, e a chamei de parmatursa. Eu vi a pedra e a chamei de cremílsica, e ao pavão chamei de gongromardélio, e ao rio chamei de... Mas Deus me mandou parar e disse que cuidaria daquilo, e me instruiu a procurar o que fazer enquanto terminava de criar o Universo, pois os anéis de Saturno ainda estavam lhe dando trabalho. E eu me rebelei e perguntei "Fazer o quê?", e viu Deus que, além do Homem, tinha criado um problema.
 
***

E perguntou Deus o que eu queria, e eu respondi: "Sabe que eu não sei?" E Deus disse que tinha me dado uma vida sem fim, e um jardim de prazeres digno de um nobre persa para viver minha vida sem fim, e frutas e peixes e pássaros de graça e dentes para comê-los, e mel de sobremesa, e que eu esperasse para ver que espetáculo, que show, seria o Universo quando ficasse pronto. Tudo para mim. Só para mim. E não bastava? Não bastava. "Eu pedi pra nascer, pedi?", disse eu. E Deus suspirou, critando o vento. "Filho único é fogo".

(...)

Quando soube da nossa transgressão, Deus deu um murro na Terra, criando o terremoto, e nos expulsou do nosso jardim persa. E durante todos estes anos, muitas pessoas têm me perguntado (pois depois disso a Terra se encheu de muitas pessoas) se valeu a pena trocar meus privilégios de primeira e única pessoa pelo prazer de conjugar com outra, e o meu tédio pelas sensações de envelhecimento e a morte, e a inocência eterna pelo saber fugaz. E sabe que eu não sei?

***

E, claro, sempre tem o gaiato que pergunta: "Fora tudo isso, que tal era a fruta?"

Luiz Fernando Veríssimo nasceu em Porto Alegre. Filho de Érico Veríssimo, além de escrever suas famosas crônicas, é tradutor, cartunista e músico. Já foi publicitário e jornalista, além de já ter escrito roteiros pra televisão. O texto acima pode ser encontrado em Orgias (Objetiva: 2005).