segunda-feira, 19 de julho de 2010

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Poeminha - Riacho

Riacho
Acho


Rosana Hermann é física, escritora, roteirista e apresentadora. Foi redatora "Pânico". Assina o blog Querido Leitor.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A primeira pessoa

No começo era eu. Só eu. Eu eu eu eu eu eu. Não existia nem a segunda pessoa do singular, porque não podia chamar Deus de "tu". Tinha que chamá-lo de "Senhor". Não existia "ele". Não existia "nós". Nem "vós". Nem "eles". Só existia eu. Eu, eu, eu, eu. Não é que eu fosse um egocêntrico. É que não havia alternativa!

***

Eu não podia pensar nos outros porque não havia outros. O mundo era uma gramática em branco. Só havia eu e todos os verbos eram na primeira pessoa. Eu abri os olhos. Eu olhei em volta. Eu vi que estava num Paraíso (do grego paradeisos, um jardim de prazeres, ou do persa paridaiza, o parque de um nobre, mas isso só se soube depois). Eu perguntei "O que devo fazer, Senhor?", e Deus respondeu: "Nada, apenas exista". E eu fui tomado pelo tédio. A primeira sensação humana.
E Deus viu que eu me enteviava, pois do que vale ser um nobre no seu parque se não existem os outros para nos invejar? E então Deus, que já tinha criado o tempo, criou o passatempo, e me encarregou de dar nome às coisas. Eu vi a uva, e a chamei de parmatursa. Eu vi a pedra e a chamei de cremílsica, e ao pavão chamei de gongromardélio, e ao rio chamei de... Mas Deus me mandou parar e disse que cuidaria daquilo, e me instruiu a procurar o que fazer enquanto terminava de criar o Universo, pois os anéis de Saturno ainda estavam lhe dando trabalho. E eu me rebelei e perguntei "Fazer o quê?", e viu Deus que, além do Homem, tinha criado um problema.
 
***

E perguntou Deus o que eu queria, e eu respondi: "Sabe que eu não sei?" E Deus disse que tinha me dado uma vida sem fim, e um jardim de prazeres digno de um nobre persa para viver minha vida sem fim, e frutas e peixes e pássaros de graça e dentes para comê-los, e mel de sobremesa, e que eu esperasse para ver que espetáculo, que show, seria o Universo quando ficasse pronto. Tudo para mim. Só para mim. E não bastava? Não bastava. "Eu pedi pra nascer, pedi?", disse eu. E Deus suspirou, critando o vento. "Filho único é fogo".

(...)

Quando soube da nossa transgressão, Deus deu um murro na Terra, criando o terremoto, e nos expulsou do nosso jardim persa. E durante todos estes anos, muitas pessoas têm me perguntado (pois depois disso a Terra se encheu de muitas pessoas) se valeu a pena trocar meus privilégios de primeira e única pessoa pelo prazer de conjugar com outra, e o meu tédio pelas sensações de envelhecimento e a morte, e a inocência eterna pelo saber fugaz. E sabe que eu não sei?

***

E, claro, sempre tem o gaiato que pergunta: "Fora tudo isso, que tal era a fruta?"

Luiz Fernando Veríssimo nasceu em Porto Alegre. Filho de Érico Veríssimo, além de escrever suas famosas crônicas, é tradutor, cartunista e músico. Já foi publicitário e jornalista, além de já ter escrito roteiros pra televisão. O texto acima pode ser encontrado em Orgias (Objetiva: 2005).

sábado, 27 de março de 2010

Dj Cremoso e seu esparro musical

Mesclar Coldplay e Djavú é absurda e inexplicavelmente interessante. 

Melhor não dizer mais nada, as esquisitices de Dj Cremoso falam por si.

Confira aqui. 

E não deixe de ouvir The Scientist.

Poeminho do Contra

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mário Quintana foi poeta, tradutor e jornalista.  É curioso pensar que tentou por três vezes ingressar na Academia Brasileira de Letras, sem sucesso; mas quem perdeu não foi ele. Nem nós.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Mulher. Ou seja: cerveja.



Clicando aqui você vê que a Schincariol e a agência de publicidade que criaram a peça acima serão processadas em função de protestos de associações ligadas às mulheres.
O.k., ela é Paris Hilton, ela não é lá a representante dos sonhos das mulheres dessas associações.
Mas desde que o mundo é mundo que comercial de cerveja tem mulher.
A Schincariol é mesmo criativa em publicidades. Vale a pena ver esta:



Só Ivete pra comparar cerveja ao sonho que você deseja e à sensação de quando alguém te beija. Perto disso, Devassa é uma beata.

Mas vamos combinar? Brasileiro gosta mesmo é de cerveja e de bunda - juntas ou não. O resto é blá blá blá.
A Schin, agora, pode dizer: "Pega leve".

sábado, 30 de janeiro de 2010

Lula e a campanha plebiscitária

 Em política, o que é hoje, amanhã já não é. Plebiscito? Menos, Lula, menos.

Com a palavra, Sua Excelência:

"Me Deixa em Paz", por Milton Nascimento e Alaíde Costa

A Solidão e sua Porta - Carlos Pena Filho


Quando mais nada resistir que valha
A pena de viver e a dor de amar
E quando nada mais interessar
(Nem o torpor do sono que se espalha)

Quando pelo desuso da navalha
A barba livremente caminhar
E até Deus em silêncio se afastar
Deixando-te sozinho na batalha

A arquitetar na sombra a despedida
Deste mundo que te foi contraditório
Lembra-te que afinal te resta a vida

Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório


Carlos Pena Filho nasceu e morreu no Recife. Há um busto em frente à Faculdade de Direito do Recife em sua homenagem: foi lá que se formou.  Foi jornalista, poeta e compositor. A porta da solidão é um mesmo convite muito tentador.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

sábado, 16 de janeiro de 2010

"Lanterna dos Afogados", por Gal Costa e Herbert Vianna

Processo nº tal


Caso simples: crime passional.

- Então o senhor sustenta se tratar de crime passional?
- Sim, Meritíssimo, crime passional.
- Promotoria dispõe da palavra.
- Meritíssimo, amor...morte...contradição em termos. O argumento de crime passional não me convence nem comove – senão causa náusea. Que diz a defesa? Que a amava o homem que a matou a facadas? Pois que os homens se odeiem!
- Ora, temos aqui um trovador...
- Prefiro-o à frieza dos escritórios – talvez aquela mesma que impediu o agente de sentir o calor do sangue da vítima, que com ela se espalhava pelo chão.
- Mas isto é agressão, Meritíssimo!
- Peço-lhe se contenha, senhor Promotor.
- Peço-lhe calor – o da vítima que, sim, amava, pois ao agente confiou até mesmo a vida. Excelência, o verdadeiro passional não mata, acolhe. O amor não separa, tampouco faz que se entrelacem um ao outro como se mãos fossem, vez que esta união facilmente se desfaz. Antes, pelo contrário, é como cimento, areia e água fazem concreto. Pois o amor é a água! Quando areia e cimento se juntam e se lhes adiciona água, edifica-se, ergue-se do improvável um paraíso; do impossível, uma ponte. A ponte se quebra se não há água, aquela que faz deles um só, ou se o “ponto da massa” não foi o desejável, aquele no qual não há nem mais nem menos: só o suficiente – mas necessário – de todos os elementos.
- Baaaaahhhhhhh.... trovas, trovas, trovas...isto é um Tribunal, não um palco!
- Talvez não tenha consultado seus manuais, pelo que me desculpo. Mas bem: diz o Código Penal que para fins de responsabilidade a Lei considera o momento do crime, e no momento do crime o que há é ódio, não há amor. Porque protege e visa perfeição, quem em verdade ama não perfura fria e indiferentemente pessoa como se trapos de panos fossem. Não, os jorros de sangue não o fizeram parar: foi até o último suspiro, quis amá-la do seu jeito até o fim. Quem é capaz de tanto não pode amar. O amor está nos lares, celeiros, maternidades; não em necrotérios, manicômios, cemitérios. O amor não tira: põe gente no mundo.
Excelência, o amor está nos berços, não está nos túmulos.

olá - "O que será (à flor da pele)", por Chico Buarque e Milton Nascimento